Quando Érica Matos via seu colega de
escola chegar na sala de aula tinha uma única certeza.
“Não sei que esporte ele pratica, só sei
que não quero nem conhecer”, lembra ela sobre
o que pensava ao se deparar todos os dias com o rosto do amigo
cheio de hematomas devido aos golpes de boxe. Na época,
com 22 anos, ela trabalhava durante o dia e estudava à
noite, e seu único esporte era o futsal.
Mas o amigo era um tanto insistente e os convites
continuaram sendo feitos, dia após dia, até
que Érica acabou cedendo ao apelo do colega e, movida
pela curiosidade, foi até o treino. “Eu era mais
fortinha, pesava 60 quilos, e o treinador disse que eu levava
jeito”, contou a atleta que hoje pesa 46 quilos.
Os quilinhos a mais não eram suficientes
para convencer a avó de Érica de que ela tinha
condições de praticar o esporte. “Ela
dizia que eu era muito magra e que só ia apanhar”.
E mesmo contra a vontade, a boxeadora foi em frente e hoje
colhe os frutos da batalha que travou principalmente contra
o preconceito.
Tricampeã brasileira (05, 07 e 08)
e campeã pan-americana (2007), Érica Matos foi
convocada para seleção brasileira e está
cotada para os Jogos de 2012.
O objetivo da atleta de 26 anos é seguir
o caminho de tantos outros boxeadores baianos, inclusive do
marido, o boxeador da seleção brasileira Robson
Conceição, que assim como ela treina na Academia
Champion.
Exemplos não faltam para inspiração.
O esportista mais famoso do Estado vem do boxe. Acelino Freitas,
o Popó, fez história em cima do ringue. É
do boxe também a maior delegação baiana
na Olimpíada de Pequim, com cinco representantes.
O pugilismo baiano também derrubou
tabus. Quem não lembra do atleta Pedro Lima que conquistou
o ouro no Pan-Americano do Rio de Janeiro e acabou com o jejum
de 44 anos sem que o Brasil ganhasse uma medalha dourada?
Com um retrospecto tão positivo entre
os boxeadores da terra, fica difícil não alimentar
a expectativa de ter mais baianos na Olimpíada de Londres,
depois que o Comitê Olímpico Internacional (COI)
confirmou a inclusão do boxe feminino nos Jogos de
2012.
A notícia deu ânimo às
atletas. Seis treinam na Academia Champion, de Luís
Carlos Dórea, o mesmo técnico dos boxeadores
que foram ao Pan do Rio e aos Jogos de Pequim.
Além de Érica Matos (46 kg),
Adriana Araújo (60 kg), Eliana Dantas (69 kg), Cássia
Fontes (51 kg), Carla Fonseca (64 kg) e Deise Marcele (48
kg) já focam os treinamentos pensando na Olimpíada.
Andreia Costa, da Academia Esporte Total, também tem
chance de conquistar vaga no seleto grupo.
De acordo com os dados apresentados pelo presidente
da Federação de Boxe do Estado da Bahia, Joílson
Santana, de 70 a 80 atletas competem no Estado, número
ínfimo se comparado à quantidade de mulheres
praticando o esporte nas academias.
É impossível precisar a quantidade
de praticantes em todo o Estado, mas segundo a boxeadora Carla
Freitas, que também é professora, hoje elas
são maioria nas aulas. “Só que elas querem
ganhar condicionamento, perder peso. Não competir”,
diz.
A falta de competitividade faz as atletas
baianas viajarem para fora do Estado para encontrar adversárias.
É o caso de Érica que entre os dias 15 e 25
de setembro disputa o Campeonato Paulista.
No dia da reportagem, as atletas da Academia
Champion fizeram um apelo. “Queremos incentivar as meninas
a começar a competir”, disse Érica. “Queremos
chamar principalmente aquelas que já competiam para
voltar ao esporte, aproveitando que o boxe feminino agora
é olímpico”, completou Adriana.
Defasagem – Apesar da euforia em torno
da inclusão das mulheres na Olimpíada, Joílson
explica que o boxe feminino ainda não está no
mesmo patamar do masculino. Para ele, a situação
tem uma explicação. Por não ser considerado
olímpico, era difícil conseguir patrocínio.
Fonte: A Tarde online


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